sábado, 10 de setembro de 2022

O rebanho

O despertador toca. Detesto, quando o despertador toca. Bato-lhe com a mão, de forma desorientada, sem olhar, até que se cale. Finalmente, consegui silenciá-lo. Mas ainda tenho uns minutos, viro-me e fico. Novamente, sou invadida por aquele barulho ensurdecedor que mais parece uma sirene de fábrica. Bolas! Outra vez? Mas eu já não o tinha desligado? Ai, ai. Eu já o tinha desligado, mesmo! Que horas serão? Dou um salto na cama e olho para o relógio. Ai, meu Deus, estou tão atrasada. Como é possível eu ter adormecido! Vou ter que apanhar o segundo comboio. Já perdi um!

Vou a correr para o duche que mal tem tempo de me molhar, de tão atrasada que estou. Visto as primeiras calças que me aparecem no armário, uma qualquer camisola quente, calço as minhas botas, visto o sobretudo, pego na mala, nas chaves e saio a correr de casa. Xi, nem me penteei. Passo as mãos pelo cabelo. Pode ser que não se note, é comprido! E corro. Nem tenho tempo para comer. Bem, quando chegar à estação, eu como. E corro. A pé ainda demoro uns dez minutos até chegar. Tem lá um supermercado e enquanto espero pelo comboio, tenho tempo de tomar o pequeno-almoço. E corro.

Cheguei. Suada de correr e caminhar apressadamente, mas cheguei. Oh, o supermercado está fechado! Porquê? E agora? Ainda faltam dez minutos para a partida e é uma viagem de trinta minutos. Agora que alternativa tenho, senão esperar. Sentada na paragem num banco de cimento frio e de paredes imundas, penso no meu dia que começa: Que dia! Mal começou e já estou ensonada, cansada, suada e cheia de fome e nem me penteei! Tem uma graça!

Será que é isto a vida normal de um trabalhador? Para sempre? Até ao final da sua carreira?

Ah, e corro um risco enorme de chegar atrasada! Se o comboio se atrasar (o que é normal)… Ora, vamos lá fazer o resumo: ao chegar à empresa, à qual poderei chegar tarde, terei de ir logo à casa de banho para mudar de roupa para não estar suada perto dos meus colegas (ainda bem que tenho sempre uma peça de roupa na empresa), mas primeiro tenho de pedir amavelmente ao senhor do bar para me preparar às escondidas o pequeno-almoço que terei de tomar na casa de banho para ninguém se aperceber. Ui, se o patrão visse!!

Uau! Este é o meu sonho de vida. Fazer isto todos os dias. Lá por volta dos trinta dá-me um ataque cardíaco e, pronto, tudo se acaba.

Finalmente chega o comboio. Vem apinhado de gente. Outra boa notícia. Tenho de ir de pé toda a viagem e coladinha a alguém. De manhã, cheiramos os patcholis todos uns dos outros. Que bom! E lá vamos nós todos, seres zombies, acabadinhos de sair à pressa das nossas camas, para nos dirigirmos todos para algum sitio. Perdida nestes pensamentos tenebrosos, noto que chegámos à estação principal. Agora, tal como nos outros dias, vamos sair todos do comboio e vamos todos para outra plataforma. Ainda temos mais um comboio para apanhar, até ao centro da cidade. São mais quinze minutos. Começamos a descer a escada que nos leva à passagem inferior, eu olho para aquele ‘mar de gente’, todos a caminhar na mesma direção… A meio da passagem paro…

Mas o que faço eu aqui? Parecemos um rebanho de carneiros. Todos a seguir um comando invisível, sem questionar porque têm de ir por ali! Parecemos robots. EU NÃO QUERO ISTO PARA MIM. A VIDA TEM DE SER MAIS QUE ISTO. E grito, muito forte, muito alto, mas ninguém ouve. É a minha alma a gritar. Não saem sons da minha boca, apenas sinto dor no meu peito. Um aperto enorme.

Sou abalroada. Passam todos por mim. Não é suposto nenhum dos “carneiros” parar e eu parei. Sou insultada. Sou empurrada. Porque parei? Estou maluca? Estou a cortar o fluxo, vão comentando. Por fim, eu penso: Não posso, penso eu. Não posso. Não quero mais. E começo a recuar. Começo a chorar enquanto recuo. Encontro a escada e sento-me num degrau a chorar. Já a multidão tinha terminado. Olho para cima e penso: 

Meu Deus, é isto que me está destinado? É isto que vim fazer ao mundo? Desculpa, mas eu não acredito! Tudo o que eu passei, resume-se a isto? Para sempre? Não pode ser. Eu pensava que tinha um propósito. Pensava que tinha uma missão. Eu pensava que vinha fazer a diferença. Tu disseste-me, quando eu era pequena. Mas afinal estou a fazer exatamente o mesmo há seis anos e todas estas pessoas fazem exatamente o mesmo há, não sei, quanto tempo. Isto não faz sentido! Eu quero fazer diferente. Elas não se questionam? Será que eu sou a única a pensar assim?


Eu tinha cerca de vinte e oito anos quando aconteceu este episódio. Mudei de emprego pouco tempo depois, apesar de estar estável. Desde essa altura, passaram mais de vinte anos. Tive muitos momentos na minha vida em que tive estes “ataques existenciais” e sentia-me presa com amarras a situações que não se identificavam comigo e senti a minha alma gritar muitas vezes. Ela sentia-se presa e dizia: “Tira-me daqui”. Sempre que me foi possível, eu tirei-a. Mudei de emprego muitas vezes, errei muitas vezes, sempre na busca, sempre a procurar algo com o qual a minha alma e eu nos identificássemos e nos sentíssemos uma só.

Agora entendo muito mais sobre a vida do que naquela altura. O ser humano quando não sabe para onde vai, imita, faz igual ao outro. Mais que não seja para não se sentir perdido no meio da solidão da multidão. E isso a mim sempre me fez confusão. Eu queria fazer diferente. Nem sempre fui entendida, talvez muitas vezes mesmo, não o tenha sido. Mas agora entendo que sempre estive certa. Eu procurei, mesmo errando, eu fui buscando.

Agora que iniciei um caminho de autoconhecimento mais espiritualizado, sinto que finalmente estou a trilhar o caminho certo. Vou recebendo bênçãos divinas e tenho a validação que sigo bem. Mesmo assim, nós não temos a visão completa. Apenas um vislumbre desse caminho. Conforme me disse ontem um ser iluminado que amo muito: “Vocês não sabem nada”. Muito grata, meu pai.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

A encosta

Corro pela encosta…leve, alegre, saltitante. Roço as minhas mãos pelas flores e corro. Por cima de mim tenho um céu azul lindo, com nuvens, mas sempre lindo. Aqui em baixo, tenho flores à minha volta. Parecem girassóis, mas com pétalas brancas e são amarelos no centro.

Sou menina ainda. Corro descalça, com um lenço meio encardido na cabeça e um vestido comprido em tons de azul, mas de aspeto pobre. Ao fundo, lá em baixo, vejo um rio e eu corro na direção dele. Não tenho medo, sei que o consigo atravessar. Já o fiz centenas de vezes. Isso dá-me liberdade. Agora já estou a chegar àquela casa. Branca, grande. Entrei na cozinha, também ela grande. Está agitada, que azáfama! Estão a cozinhar. Uns entram outros saem, todos desempenhando tarefas de forma apressada. Procuro escapar dali, mas fui notada.

Agora estou a descascar batatas e cenouras. Foi aquela senhora anafada. Puxou-me e deu-me um utensilio cortante, uma espécie de faca. Não gosto, tento fazer aquilo o mais rápido possível. Eu gosto é de andar a contemplar a natureza. E começo a divagar enquanto corto os alimentos. Os meus pensamentos vão para longe. Lá para fora. Para a encosta e para as flores. Para o rio… Mas… sou sacudida, deixei cair um alimento ao chão. Tenho de ter atenção ao que faço. Sinto que é aquilo que tenho de fazer, é algo imposto. Um trabalho. Quero ser alimentada, tenho de trabalhar.

Subitamente, alguém entra na cozinha por uma das portas vinda da casa. A senhora gorda, esconde-me atrás dela, largo tudo e manda-me fugir pela porta que leva ao exterior. Eu fico feliz. Não percebi, mas fiquei feliz. Afinal, lá vou eu, correndo em direção à minha encosta de flores. Ao meu lado, lá no alto fica o castelo. Não percebo se já lá estive. Mas, não é importante. Quero a minha encosta. Primeiro passo o rio…Que água tão cristalina, tão fresca! Aproveito para me banhar nela…com roupa e tudo. Não tem mal, depois seco ao sol e ao vento. Termino os mergulhos, já estou cansada. Subo a minha encosta, custa mais! É a subir, a roupa está molhada… Quando chego ao cimo, deito-me para secar. Dali vejo o céu e estou ladeada pelas minhas flores brancas e amarelas. Que lindo é o mundo. O que pode haver de melhor na vida. Deixo-me ficar e…adormeço.


Acordei nessa manhã de abril e lembrei-me de tudo. Lembrei-me de cada pormenor, como se tivesse acabado de acontecer. E tive a certeza que não foi um sonho, foi uma lembrança de uma vida passada. Pensei: “Há quanto tempo terá acontecido tudo isto? Que bom! Sentia-me mesmo bem. E se pelo menos eu encontrasse esse lugar? Se ele ainda existisse? Onde seria? Portugal? Não. Lembra-me a Irlanda. Será lá? Bom, quem sabe, um dia saberei.”

Depois desse “sonho”, voltei a visitar o mesmo local. Numa das vezes, eu já era uma jovem e o sonho voltou a ser feliz. Numa outra vez, voltei a visitar aquela jovem, mas o sonho não terminou de forma feliz. Trouxe muito sofrimento. No entanto, o que guardei dessas minhas "viagens", foi a minha encosta e o castelo no alto. Ah, se eu soubesse onde era! 

Há duas semanas, cerca de seis meses depois do primeiro "sonho", enquanto percorria a internet, deparei-me com uma foto de um lugar muito parecido com a minha encosta. Quase idêntico. Onde seria? A minha curiosidade aumentou. Agora não poderia perder a oportunidade de saber. Durante alguns dias, fiz diversas pesquisas e finalmente descobri. Fiquei feliz. Sim, fica em Portugal. Fica a 280km da minha vila, mas sim existe. Eu nunca lá estive, pelo menos, nesta vida. Mas a encosta ainda existe, o rio e o castelo também. As flores também existem, sejam iguais ou parecidas, não importa. São amarelas e brancas. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Desanuviar

Triste ... a chorar com aquela falta de merecimento tão conhecida ... O aperto de desespero no peito, deixa-me um peso enorme e a Luz quase que não tem por onde entrar ... São sensações conhecidas que trazem uma tristeza profunda que parece definitiva... Esse choro de desespero que não é evolutivo, que só se retroalimenta. A Luz está lá mas parece inalcançável, sei que tudo depende da minha escolha. E escolho tentar me movimentar nesse fluido viscoso e peganhento dessa energia pesada, dessa energia que tem séculos nas minhas células. Sei que foram as minhas escolhas que me troxeram "aqui". A falta dEle é dolorosa, ao mesmo tempo sei que Ele esta em tudo, sei que está em mim, mas tenho dificuldade em sentir isso ... Resolvo tirar uma mensagem do Livro do Amor da nossa mestra Alex Solnado, esse livro que fala ao meu coração. Ao tirar as peças entrego-me ao que vier. Sai a Próxima Mensagem ... fico mais leve, afinal consigo ouvi-Lo ... Essa mensagem remete para Respostas do Céu que assenta como uma luva, parece que foi escrita para mim nesse mesmo momento ... choro ... Ensina como receber respostas do Céu sem ter que utilizar o livro ... são 5 passos ... mas a expectativa é grande ... é preciso prescindir dela ... Como sinto muito a falta de merecimento decido me focar nos primeiros três passos 1) Primeiro faz uma Autolimpeza Espiritual; 2) Depois fica só assim a prescindir de tudo o que não é teu; 3) Depois recebe a minha Luz; 4) Faz a tua pergunta; 5) E fica no zero até chegar a minha resposta. Para quem tem dificuldade, a preparação energética é feita repetindo os três primeiros passos. Estou mais confiante, consigo me entregar à experiência ... Começo a sentir Jesus, aquela plenitude indescritível invade-me. Pergunto se tem uma mensagem para mim e vem uma frase ... vou buscar rapidamente um lápiz e o meu caderno e escrevo. Sinto que vem dEle. Sei que é Ele que fala:
Quem és tu para decidires se tens ou não valor ? Quem és tu para decidires o valor dos meus filhos, incluindo tu ? O teu valor está no teu diamante, el traz a minha Luz.
Fico de coração cheio com a resposta dEle. A falta de merecimento dissipou-se, saiu de mim.
Pergunto : O que é para fazer amanhã ?
Praticar o Amor. Em tudo. Desde que acordas. É um jogo. Vais ter que descobrir, em cada situação como praticar o Amor.
Quer dizer mais alguma coisa ?
Só te dar um beijo na testa.

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Autoestima

É incrível como uma mentira contada muitas vezes, torna-se uma verdade para a pessoa que a conta e, pelo menos, durante algum tempo (ou muito) para a pessoa que a ouve. Assim acontece com a autoestima. Ou, pelo contrário, com a falta dela.

Se alguém passar muitos anos a dizer-te que não prestas, que não sabes fazer nada, que todos são melhores que tu, que deverias ter vergonha, que és burra, que estás a ficar gorda, que estás a ficar feia, que estás a ficar velha, que não sabes cozinhar, que não sabes tratar bem da casa, do marido, dos filhos, da mãe, do pai, etc…, sei lá, tudo serve para te inferiorizar.

E então se for alguém da tua família ou com quem tenhas um relacionamento muito próximo, tu acabas por acreditar que essas pessoas têm razão. Afinal elas amam-te, pensas tu. Até agradeces a Deus o facto de as teres junto de ti para que elas te possam ajudar a perceber que afinal tens poucas qualidades que sejam admiráveis, que tens muito que te desenvolver para poderes ser melhor e tens ali uma pessoa do teu lado que te está a ajudar a fazer esse caminho pois vai-te dizendo as verdades que tu mereces ouvir. Que bom! Que grata te sentes! E agradeces a Jesus todos os dias por os teres na tua vida.

O problema é que à medida que os anos vão passando tu vais te apercebendo que todas as pessoas com quem trabalhas, sejam colegas ou mesmo os teus chefes, ou mesmo os amigos fora do ambiente de trabalho, te consideram uma pessoa muito competente, reconhecem-te inúmeras qualidades que tu esperavas ouvir daqueles a quem queres bem (da tua família) e não daqueles que acabam por ser temporários na tua vida. Mesmo assim ainda pensas: “Oh, aquela pessoa diz aquilo porque só me conhece aqui, neste ambiente. Se ela me conhecesse bem, se tivesse todo o tempo comigo, chegaria à conclusão que afinal eu não sou assim tão merecedora daquilo que ela diz sobre mim.”

Finalmente, um dia começas a despertar e começas a questionar-te: “Mas porque é que sou tratada de forma mais gentil, humana e respeitosa ‘fora de casa’ do que ‘dentro de casa’? Porque é que os outros reconhecem o meu valor, mas ‘em casa’ não?” Embora ainda seja um processo que demora anos até se tornar perfeitamente consciente no teu cérebro, tu já vais começando a fazer comparações diariamente. Chegas a casa e dizes: “Olha, sabes, hoje fui muito elogiada pelo meu chefe por ter desempenhado muito bem determinada tarefa.” ou “Hoje, consegui ajudar a empresa a obter um cliente que era muito difícil.” ou “Hoje ajudei os meus alunos a concretizarem um projeto espetacular”, são apenas exemplos, claro! E a resposta que obténs é: “O que é que isso me interessa? Pensas realmente que essas pessoas gostam de ti? Elas apenas dizem isso porque estás a fazer o que elas querem que tu faças! És um pau mandado. Deixas-te influenciar por tudo que te dizem!”.

Existem aqueles momentos em que tu te sentes um pouco melhor, mais animada, sentes que afinal tens valor porque, cada vez mais, o número de pessoas que te vai valorizando é maior e começas a subir a tua autoestima. Mas, depois, ouvindo amargas palavras como estas, pensas para ti: “Mas porquê? Porque é que é sempre assim? Porque é que não ouço uma palavra de alento? Uma palavra de reconhecimento?" E choras, choras muito, sem ninguém saber. Choras e pedes desculpa a Jesus por estares a agir assim, a sentires-te assim, a sentir que tens valor. E continuas a pensar: "Mas eu não me sinto superior aos outros. Eu reconheço o valor dos outros, mas eu também devo ter algum valor, não? Será que estou a pensar mal?" Há uma voz interior que diz que estás certa, mas depois, ali, ao teu lado, tens alguém que te mostra que te achas melhor que os outros. Pedes desculpa a Jesus e choras. É sempre o mesmo processo. Há muito tempo. E, assim, no dia seguinte, lá inicias o teu novo dia de cabeça baixa, porque afinal não vales assim tanto quanto pensas.
Até um dia...

Um dia, de repente, mudas a tela ao contrário e pensas: "Será que o mal está mesmo em mim? Ou será que o mal está naquela pessoa que mesmo afirmando que gosta de mim e que aquilo que diz é para o meu próprio bem, não consegue manifestar admiração por mim e, em vez disso, se sente inferior e, por isso, prefere humilhar-me para ela própria não se sentir diminuída?”

Este foi o ponto de viragem. É como se andasses anos cega e de repente começasses a ver. E com tanta clareza, meu Deus, que até magoa. Aí sim, começa a dor real, profunda, porque afinal iniciaste o teu processo de ENXERGAR A REALIDADE. E isso dói. Como pudeste ser tão cega? Tantos anos a ver apenas uma perspetiva, um lado, e afinal esqueceste que existem sempre dois lados da mesma moeda.

Então tu, que reconheces que todas as pessoas à tua volta têm valor, que todas as pessoas têm qualidades e defeitos, que todas têm talentos...!!! Se uma pessoa não tem talento ou não é boa a fazer nada, então porque Jesus a colocou na terra? Não tem lógica. Então, entendes: é porque TU TAMBÉM TENS VALOR!

E começas a perceber: “Espera aí? Algo aqui não está bem. Eu tenho confiança nos meus atos e nos meus pensamentos, então porque permito que uma pessoa me desvalorize tanto, ao ponto de eu me negar como pessoa? Afinal não é ela que está errada! Sou eu que estou errada! Essa pessoa está a fazer o papel dela, o caminho dela e está muito feliz por estar a conseguir atingir o objetivo a que se propôs em relação a mim. Quem sabe, terá uma evolução muito grande pela frente para fazer se quiser realmente mudar e melhorar o seu comportamento em relação aos outros. Mas isso é problema dela. Não meu. Eu tenho que fazer o meu caminho. E quanto a mim, eu é que estou errada. Sou eu que estou a permitir que me tratem assim. Sou eu que tenho que me valorizar e ver o apreço que os outros têm por mim e pelo meu trabalho. Eu tenho valor. 

É desta forma que tu começas finalmente a entender que, nem sempre aqueles que te são próximos (família, relacionamentos) são aqueles que te querem bem. Pode não ser por mal, até. Apenas não sabem ser de outra forma. Mas cabe a ti pensar se queres continuar a viver assim. É nessa altura, que tu começas a entender o verdadeiro significado daquela expressão popular: “Afinal se eu não gostar de mim, quem gostará!”

sábado, 3 de setembro de 2022

O cão


Todos nós temos momentos de irracionalidade, momentos em que não pensamos direito nas nossas ações, apenas reagimos. Eu já tive alguns momentos desses e na altura reagi sem pensar que o desfecho poderia ser negativo para mim!

Eu adoro animais, principalmente os nossos amigos gatos e cães. E não suporto ver crueldade para com os animais. Há muitos anos, no inicio da minha carreira profissional, fui a uma entrevista de emprego. Como não era propriamente perto da minha residência, tive que ir de comboio. No regresso, tive que aguardar muito tempo pelo comboio e, como não havia qualquer comércio ali por perto, resolvi esperar na estação. Lembro-me que a estação era velha, escura e os bancos, ainda de madeira, estavam sujos e não convidavam a sentar, principalmente estando eu vestida de branco. Então fiquei de pé.

Passado algum tempo, não sei precisar quanto, notei que na mesma plataforma, mas uns metros afastados de mim, estava um homem na casa dos 40 anos, vestido com roupa gasta, suja e perto dele passava um cão. Não me parece que o cão fosse dele e o tivesse acompanhado até à estação, porque na verdade, o que me lembro de pensar era que o cão já costumava andar por ali na estação e estava a tentar aproximar-se do homem. O cão estava em má condição física e coxeava muito. Quando dei verdadeira atenção à situação, já o homem enxotava o cão e dava-lhe pontapés. E o cão, fraco e com tanta dor, deitou-se no chão, não se mexia, gania e enroscava-se o mais possível a cada pontapé que levava.

Eu, incrédula, comecei a olhar para a situação e revoltada, olhava para as outras pessoas, poucas, que estavam na estação na tentativa desesperada que alguém fizesse alguma coisa. Mas lembro-me que todos eles viraram a cara como se não estivesse a acontecer nada. Cada vez que ouvia o cão queixar-se com dor, era mais um pontapé que levava e mais um baque que o meu coração sentia. Eu não sei quanto tempo eu fiquei a pensar no que podia fazer, minutos? segundos?...

Decidida a fazer alguma coisa, porque ninguém fazia nada, sem pensar, eu dirigi-me ao homem e quando cheguei perto dele, num impulso, puxei a mão bem atrás e dei-lhe uma bofetada na cara com toda a força que tinha! E disse-lhe: “E então? Gostou? Também gostava que lhe fizessem o mesmo? Deixe o animal em paz porque ele não se pode defender, mas eu estou aqui para defendê-lo. Imagine que era você ferido ali no chão e uma pessoa a dar-lhe pontapés. Gostava?”

O homem ficou petrificado. Estava perplexo com a minha atitude, não teve reação e nem conseguiu dizer nada. Foi embora da estação a passos largos e de cabeça baixa.

Eu estava literalmente fora de mim que nem me dava conta do comportamento que tinha tido. Continuava com sentimento de revolta dentro de mim por ver tanta crueldade. Mas só pensava no cão. Assim, baixei-me para ver o estado de saúde do cão. Foi então que me apercebi que ele coxeava porque tinha uma ferida exposta na anca, provavelmente de algum atropelamento com carro ou comboio. No meu pensamento só pensava como salvá-lo e como poderia fazer para o levar ao veterinário, mas para isso teria de o levar no comboio. Enquanto pensava em tudo isto, olhei à minha volta e foi então que me apercebi da dimensão do que tinha feito: o susto na cara das pessoas, o seu olhar perplexo… Uma senhora aproximou-se de mim e deu-me os parabéns pela minha atitude, outros disseram que eu fui muito corajosa e destemida, mas também houve quem dissesse que eu fui inocente e me coloquei em perigo, pois o homem já costumava andar pela estação, fazia sempre coisas que não devia e tratava mal as pessoas. Ele podia ter-me feito mal. Além de que era bem maior e mais forte do que eu...

Mas eu não pensei, agi. Não estava orgulhosa da minha atitude, mas no momento apenas pensei que se ninguém fazia nada, eu teria de fazer alguma coisa. Parti para a violência, o que nunca é justificável, mas no momento resultou, porque apanhando o sujeito desprevenido com a minha atitude, ele parou com a sua crueldade. Foi como se eu o tivesse acordado de um transe…

Infelizmente, acabei por ter de deixar o animal na estação porque na bilheteira disseram-me que o cão não poderia ir no comboio. Eu expliquei, mas nem assim. Não era permitido. Além disso, quando voltei da bilheteira minutos depois, e me tentei aproximar dele, ele já se afastava para longe da plataforma, para longe das pessoas, coxeando com uma pata no ar, olhando para trás com ar triste, desolado.

Esta história verídica passou-se há mais de 25 anos, mas marcou-me de tal forma que ainda hoje penso que poderia ter feito muito mais do que aquilo que fiz no momento. Nem é o momento da bofetada que recordo vivamente, mas sim a tristeza no rosto do animal, a desilusão, enquanto se afastava, como se estivesse desiludido connosco, pessoas.

sábado, 27 de agosto de 2022

A promessa

 Adoro animais! Todos. Consigo me relacionar com eles, consigo ver a Alma de cada um deles. Eles têm um lugar especial no meu coração. É um lugar sagrado, onde está sempre Sol.

Quando finalmente fui viver por minha conta, com 22 anos, o que mais me custou foi a separação deles. Vivia no bairro da Alcântara, em Lisboa, numa residência universitária e passava os fins de semana e os dias feriados na Tapada da Ajuda, que nessa altura ainda tinha muitas árvores e vegetação. Um dia vi lá um cão de caça em bastante mau estado, doente, e percebi que estava condenado se não fosse tratado. Tinha uma postura muito digna e depois de me farejar ficou a olhar para mim. Passaram 30 anos e recordo-me como se fosse ontem. Falei com ele, não tinha nada para lhe dar de comer. Estava cheio de feridas na pele e senti o meu coração a se partir por não ter coragem de lhe dar uma festa. Disse lhe o que sentia e expliquei-lhe que não o conseguia ajudar. Senti que entendeu e se foi  embora pela vinha até ao muro circundante. Subiu em cima do muro e de lá começou a enxergar na direcção oposta, a linda vista da ponte com o horizonte como fundo. Já não me ligava e o olhar dele ia para longe, na dignidade de quem procura o infinito e encontra Deus. Chorei rios ali, naquela tarde, por não o poder ajudar, chorei a minha impotência, chorei por ele estar doente, chorei pelo sofrimento dele. Foi ali que fiz uma promessa à mim mesma. Prometi-me que um dia, iria ajudar os animais em sofrimento que se cruzam comigo. E cumpri. Estou a cumprir. E isso me traz muita felicidade! 

Nunca comprei um animal, todos foram resgatados. Porque a Alma não se compra. Basta não fechar os olhos. A vida mostra, a vida traz. Só 12 anos mais tarde, consegui resgatar o primeiro animal, a gata Nikita, e 20 anos mais tarde a cadela Fiona. Foram companheiras de viagem para os momentos de alegria e de tristeza. Trouxeram bênçãos e ensinamentos. E sobretudo me ajudaram a me tornar uma melhor pessoa, com tanto Amor Incondicional que me deram. Hoje tenho um refúgio de gatos de rua na garagem da minha casa. Estão completamente livres, a entrar e a sair por uma manilha. Cada animal que se cruza comigo é uma bênção do Céu. 

Quando conheci a espiritualidade pela Alexandra Solnado, e li, numa mensagem da Luz de Jesus "eu estou no animal que não trataste“, o meu peito explodiu de felicidade, tudo que eu já sentia agora veio como ensinamento. 

AMT

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Rejeição e reconhecimento

Era uma vez uma menina que passava o tempo a estudar. Tentava fazer tudo bem feito, perfeito, para que ninguém lhe apontasse defeitos. Fazia tudo a pensar que era isso que esperavam dela. Quando ouvia uma critica, não lidava bem com ela e, se alguém lhe dizia que algo não estava bem, mais ela se esforçava por agradar. No fundo, passava o tempo a querer ouvir uma palavra de reconhecimento.

Durante anos, esforçou-se na tentativa de obter essa palavra, de sentir orgulho por parte da sua família. Foi pioneira em muitas situações, em muitas ações, e, principalmente, tinha uma forma de pensar e de agir diferente do que era esperado do seu papel de mulher na sociedade. Mesmo assim, ela pensou sempre: “Um dia vou ouvir o quanto gostam de mim, mesmo com os meus defeitos, o quanto estão orgulhosos por tudo o que consegui, mesmo que em alguns momentos não tenham entendido as minhas razões ou decisões.” Mas não. Essas palavras nunca chegaram de quem ela queria. Ouviu-as de pessoas amigas, colegas e até mesmo estranhos, mas nunca as ouviu de quem ela sempre desejou.

Também pensou que provavelmente não as ouvia porque esperavam que ela fosse forte e que, em nenhuma situação, deveria mostrar fraqueza. Assim, enfrentava todos os “Golias” que lhe apareciam pela frente da melhor forma que conseguia, sem tempo para ficar com depressão, sem tempo para parar e fragilizar-se. Tinha a certeza que era isso que queriam que fizesse. Assim, iria ouvir as tão esperadas palavras de reconhecimento. Mas não. Nada. Novamente, ouviu-as de outros, mas não da família.

Até que, um dia, esta menina, agora já crescida, parou para refletir e a resposta veio através de uma leitura num livro: “…aceita vivenciar o que te está a ser proposto, seja o que for. Se não puderes mudar o rumo dos acontecimentos, fica, não fujas da dor. (…) Sente até ao fim. Chora, se for preciso. Só assim estarás pronto para arrumar o assunto e continuar a jornada. Jesus”. (“O Livro da Luz", Alexandra Solnado).

Afinal, eu estava a ver apenas uma perspetiva e esqueci que neste mundo existem sempre dois aspetos: o bom e o menos bom. Eu procurava o bom, desesperadamente. Até que entendi, que por vezes, é mesmo intenção do Universo que passemos por esses desafios para podermos evoluir. Se estamos a passar por determinada situação, não podemos sentir pena de nós próprios, temos de analisar: "porque atraí eu esta situação? O que é suposto eu aprender com isto?" Afinal, tudo está milimetricamente orquestrado pelo céu. E se eu atraí determinada situação é porque existe alguma aprendizagem para fazer. Assim, estou a aprender a aceitar e deixar fluir.